Dez entre dez webdesigners se tremem ao ouvir do
cliente aquela pequena frase, bem negativa: não gostei. Quem aqui gosta
de ouvir isso? Acho que ninguém, não é mesmo? Nem os novatos, nem os
experientes.
Não é fácil trabalhar com gostos, isso é verdade, mas o
que explica uns gostarem de Yakisoba e outros não? Alguns sentem gosto
nos sanduíches do McDonalds, enquanto outros afirmam só sentir gosto de
plástico e isopor. Um dia uma aluna minha colocou toda sua indignação
pra fora dizendo o quanto o vermelho do site G1 era terrível, mas ela
mostrou o motivo, defendendo sua idéia de que o vermelho não é o mais
apropriado para um site de notícias. Pelo menos ela falou com
conhecimento — já que além de webdesigner era psicóloga e sabia muito
bem a teoria das cores de cór e salteado.
Agora imaginem vocês lidar com o gosto do cliente,
aquele que contrata você por não saber bulufas sobre cores, design,
formas, muito menos de comunicação visual.Você cria o layout do site,
apresenta ao cliente e ele diz: não gostei. E agora? O cliente é culpado
por não gostar? “Poxa Bruno, mas o layout estava tão legal, bonito, o
melhor que já fiz na vida, tentei defender de todas as formas, mas ele
quis mudar a cor do layout de cinza para violeta, mesmo sendo uma
siderurgia. O cara faz aço, ferro, o que tem a ver violeta com isso?”
Na maioria das vezes é questão de gosto. Dizem que gosto não se discute, mas na nossa profissão, gosto deve ser discutido sim.
“Mas Bruno, e quando o gosto do cliente não é tão gostoso assim?”
Bem, aí existem algumas ações que você pode tomar para evitar isso.
1. Briefing: este momento é
importantíssimo. O briefing não deve se resumir a um simples
questionário aplicado em forma de entrevista. Você deve conversar com
seu cliente assim como conversa com um amigo. Aborde temas fora do
assunto internet, pergunte sobre a empresa, o que ela faz, mas também
pergunte ao cliente as cores que ele gosta, que estilo ele prefere e
deixe o papo fluir. É importante que você saiba que o briefing vai além
da simples entrevista. É quase que um trabalho sensorial. Você deve
perceber como o cliente vê o mundo a sua volta, se a vida dele vai
bem, se ele está satisfeito com seu momento atual. Parece complicado, mas aposto que você já botou esse seu lado sensorial em prática muitas vezes.
bem, se ele está satisfeito com seu momento atual. Parece complicado, mas aposto que você já botou esse seu lado sensorial em prática muitas vezes.
Por exemplo, numa festa você conhece uma pessoa pela
primeira vez. Algum amigo apresenta e essa pessoa senta na mesma mesa
que vocês. Um dos dois puxa conversa e em alguns minutos você já está
sabendo o que a pessoa gosta de fazer, o que ela faz, se ela é
simpática, bem humorada,
satisfeita ou insatisfeita, chata e negativa.
satisfeita ou insatisfeita, chata e negativa.
Esse mesmo trabalho de análise deve ser feito na primeira entrevista com o cliente. Isso pode evitar momentos desagradáveis.
Um amigo meu me contou uma história que aconteceu com
outro amigo dele, publicitário. Este publicitário foi apresentar a
campanha impressa para o cliente, mostrou o anúncio de revista num telão
para o dono da empresa e os sócios. A peça mostrava uma moto em alta
velocidade. O dono da empresa saiu da sala chorando e mandou tirar o
anúncio. Na hora esse publicitário não entendeu o motivo de tal atitude.
Logo depois ficou sabendo: o filho do cliente tinha falecido dias
antes. A causa da morte foi acidente de moto.
Talvez, numa conversa com o cliente ou conversando com
os próprios funcionários, seria possível saber disso antes de criar a
peça. Isso mostra o quanto é fundamental essa primeira fase do projeto e
como o briefing vai além das simples perguntinhas do questionário.
2. Tenha argumentos para defender seu layout.
Não adianta dizer para o cliente: “Senhor, o layout está bom, está
bonito!”. O cliente pergunta: “Porquê?”. E você responde: “Porquê eu
acho bonito, lindo, é o melhor layout que já fiz. E todos meus amigos
também acharam”.
Achismos. Isso mostra total insegurança do
profissional. Você deve ter argumentos convincentes para defender o seu
layout. Dizer que usou tal forma pois isso nos leva a isso e aquilo,
fazendo uma alusão a tal coisa. Explique o significado da cor escolhida
relatando os estudos feitos em relação a cor dentro dos estudos da
psicologia das cores. Mostre que o uso do quadrado junto com o retângulo
corresponde a determinada lei da gestalt, isso mostra que você tem
conhecimento do assunto, se mostra um especialista e passa segurança
para o cliente.
É o mesmo que o mecânico. Você não entende nada de
mecânica, mas quando ele chega dizendo que a solução está na rebinboca
da parafuseta, vai de encontro a essa estranha peça e corrige o problema
em minutos, você passa a ter segurança no que esse mecânico diz.
Será que a rebimboca da parafuseta existe? Será que
nesta foto podemos ver um monte de rebimbocas? E as parafusetas, onde
estão? Bem, devemos analisar isso com muito cuidado.
Se você chega num consultório médico e o doutor disser
para você que a sua doença é uma virose e receita um simples paracetamol
para você tomar, não bate uma desconfiança em você? Pensamos assim:
“Poxa, é muito fácil esse doutor dizer que é uma virose. Claro, simples
pra ele, assim ele me
dispensa e atende outro”.
dispensa e atende outro”.
Agora quando o médico faz uma bateria de exames e
descobre que sua virose se trata da Paramyxovirus e ainda explica a você
que “é um grupo de vírus envelopados com genoma de RNA simples de
sentido negativo (é a cópia que é usada para a síntese proteica) e que
sua transmissão é por gotas expelidas em espirros ou tosse”, me diga,
você não sente uma segurança muito maior, chegando a pensar “Pooooxa…
esse doutor sabe mesmo. O outro lá só disse que era uma virose, esse
não, disse o nome da virose e ainda me disse como eu devo ter pegado
isso”.
Nesse caso você é o doutor. Você detém o conhecimento,
por isso explique ao cliente o motivo de todos os elemento utilizados no
layout, desde as cores usadas, até as imagens e formas. O cliente irá
confiar mais em você, sentirá credibilidade no que diz e poderá até
deixar os seus gostos pessoais duvidosos de lado.
3. Muitas vezes o cliente tem razão. O
seu trabalho não ficou bom. Por isso nunca saia achando que o cliente
não sabe de nada. Ele pode não saber nada de design, mas é um usuário
comum como a maioria que irão acessar o site dele. Então a opinião do
cliente é muito importante. Tente buscar com ele o melhor caminho. Um
trabalho de criação como o de layout de sites necessita da participação
do cliente nessa concepção, afinal, você está mexendo com a imagem da
empresa e ele sabe muito bem como é o perfil dos clientes dele. Por isso
considere a opinião do cliente muito importante. Quantas vezes o
cliente disse para mim “não gostei” e isso acabou num resultado ainda
melhor do meu trabalho?
4. E quando o cliente diz não gostei e pronto?
Aí a coisa complica. Você deve deixar claro que é necessário a
participação dele nesse projeto. Ao dizer “não gostei” ele precisa dizer
o que não lhe agradou. Somente assim você poderá seguir o melhor
caminho, fazendo as alterações necessárias para chegar na expectativa do
cliente.
5. Cuidado com o cliente que diz: “faça do jeito que você achar melhor, não quero atrapalhar sua criatividade”.
É verdade que clientes que “ditam” o trabalho para você acabam
dificultando o trabalho, mas os que deixam muito solto também. O fato é
que todos os clientes esperam alguma coisa de você, sempre tem algo em
mente. O problema é que alguns não sabem expressar isso. Cabe a você
tentar descobrir através do briefing e dizer ao cliente que isso não
atrapalha a criatividade mas só vem auxiliar você na criação do layout
afim de atender as expectativas dele.
Então pessoal, na próxima vez que ouvir um “Não gostei”, não se assustem. É normal. Acontece nas melhores famílias.
http://www.brunoavila.com.br